76. CABE TUDO
Neste momento, cada bloco de 50 minutos de aula é um exercício de teatro: os putos não podem saber que eu não faço ideia do que estou a fazer. Carreguei num botão e no dia seguinte estava na escola.
Um dos “meus” míudos — sim, porque, como se não bastasse estar a leccionar pela primeira vez, também me fizeram director de turma (logo eu, imagine-se!) — estava, no outro dia, visivelmente perturbado. Puxava os cabelos, batia na mesa, falava sozinho. Veio de outra escola. Tem 11 anos.
“Eu não aguento mais, eu não aguento mais!”
Se eu transcrevesse o que ele dizia, a complexidade da situação que me descreveu, as palavras que utilizava – não diriam que era um míudo.
O trauma força uma espécie de maturidade venenosa, que nos priva da infância, e que em muitos casos, nos faz viver uma infância de libertação prolongada, ao longo da vida adulta.
A sobrevivência fala mais alto.
É preciso entender a situação, vigiar o que os outros sentem, estar constantemente atentos. Para nos protegermos da próxima coisa, tentamos controlar tudo. Porque nunca se sabe quando é que cai a próxima bomba. O próximo grito. O próximo insulto. O próximo estalo. O próximo vazio. A próxima pessoa que nos deixar.
É difícil de desligar.
Demora anos (se sequer o conseguirmos) até que as defesas se desliguem, e sintamos que é possível sofrer sem que isso nos domine, amar sem que isso nos destrua. Viver sem que isso nos mate. A fazer com que isso tudo caiba. Já adultos, vamos tecendo explicações para tudo — para não termos de aceitar ser um caos injustificável. Mas suspeito que todas elas partam de uma memória implícita e inconsciente, que nos faz sentir coisas e ter comportamentos que não conseguimos explicar ou controlar.
E isto dá em míudos de 11 anos a dizer que não aguentam mais viver. A dizer…
“Eu perdi a pessoa que mais amo no mundo.”
Por vezes, parece que não cabe mais nada.
Que a vida não pode ser, alguma vez, boa. Que a felicidade dura apenas um segundo, e torna a hora que se segue ainda mais tortuosa. Que a nossa história é caligrafada em cicatrizes, uma vez escrita, a sentença está ditada. Que o amor nos leva sempre ao mesmo ciclo, e parece que nunca lhe conseguimos escapar.
Porque a coisa que mais nos dói, assusta e afasta, é a de que mais precisamos.
A sensação mais perigosa do mundo surge quando nos sentimos encurralados. Quando sentimos que não cabe mais nada. Que não temos saída. Deixamos de agir: reagimos. Mas a vida muda de formas imprevisíveis. Para uma criança, isto é inconcebível. Nessas idades, ainda não sabemos que as coisas passam.
Falei com o míudo. Ouvi-o. Estendi o braço e agarrei o dele. Disse-lhe: “Isso é tudo muito difícil. Ninguém aguenta.”
Tive de segurar as lágrimas. Tinha outros trinta putos para governar, mas curiosamente, durante este momento, falaram baixo. Foram gentis. Por muito que berrem e batam uns nos outros com réguas quando eu viro as costas, ou me perguntem se eu sou casado, inventem alcunhas e me comparem com actores ou YouTubers que eles conhecem…
Estas pequenas pessoas são isso mesmo.
E esta pequena pessoa já viveu coisas que a maioria das pessoas grandes que conheço teriam sérias dificuldades em enfrentar. De justiça, ou equilíbrio, aqui, não há nada. Há uma enorme falta, uma falta que come tudo, uma falta de amor que corrompe tudo. Dá-me uma raiva difícil de descrever.
Quase que quero pegar neste puto e perguntar “Dá para levar este para casa?”. Mas enquanto professores há limites para o que conseguimos fazer.
Se eu tivesse de escolher um tema que descrevesse qual é a problemática que mais assombra a minha vida, seria esta pergunta: como se quebra um ciclo?
Vejo isto nas minhas pinturas, nas histórias que escrevo, nas pessoas que amo. A pergunta desdobra-se:
Como é que, realmente, sem fugir do que nos assusta, se consegue viver com o mal que nos fizeram, sem que esse mal se estenda aos que querem estar perto de nós?
Como é que se pegam nestes mesmos materiais, e se constrói, se repara, em vez de destruir?
As minhas pinturas ficaram esburacadas e derretidas. Faltam bocados. Ainda estão lá. Nas minhas canções, escrevo sobre aguentar. Sobre carregar pesos connosco sem que a vida deixe de valer a pena. Porque essa é a minha batalha. Em menor ou maior grau, é a de todos nós:
Como é que se vive?
Juntos.
Cabe tudo.
Ultimamente, sou capaz de estar a ter um dia dilacerante, e mesmo assim, não deixar de apreciar o canto dos pássaros, o gosto do café, o prazer de ler um livro, ou o silêncio que só encontro quando os meus pincéis se mergulham na água, e pinto. É novo, isto.
Cabe tudo, e isso é que é o problema.
O peito dilata, e nunca quebra. A nossa capacidade para a dor é ampla, e conseguimos segurar imensa, até os músculos, depois de anos, finalmente se esgotarem. Quando somos crianças, nem sequer sabemos o que estamos a segurar.
“Perdi a pessoa que mais amo no mundo e não tenho mais ninguém.
Não quero mais viver.”
Alertei os meus colegas. Fiz o que podia. O rapaz foi para uma urgência psiquiátrica.
Rezo por ele. Uma súplica anónima e sem endereço, mas que me relembra, no final do dia, ajoelhado na beira da cama, daquilo que é importante, lá no meio de tudo o que não é. O ruído é imenso.
Quando entro naquela sala, tenho de ser mais adulto do que os míudos.
Não posso chorar, mas sempre que escrevo ou falo sobre isto é impossível que a voz não se aperte. Em parte, porque parte de mim sabe o que é ser aquela criança, e sabe quão difícil é o caminho que tem pela frente.
E que não posso fazer nada. Não posso resolver nada.
Mas também isso, tem de caber.
Acaba sempre por caber tudo.
— Simão Martinez, Director de Turma




