75. PUTOS
Esta semana comecei a dar aulas a crianças entre os 10 e 12 anos (excluindo repetentes) numa escola pública. Em pouco tempo, já tive uma experiência completa - no meu segundo dia de trabalho, aderi logo à greve.
Não há nada melhor para sair da zona de conforto, que lentamente me atrofia, do que uma aventura. De súbito, a maionese - onde me andava a espreguiçar - sumiu, e as questões existenciais dissolveram-se perante os ultimatos da vida prática.
Costumo dizer que sou como um gato: aterro sempre em pé. E funciono tão melhor quanto maior a crise que tiver de enfrentar, ao ponto das crises se tornarem uma atracção irresistível com as quais não sou tão selectivo como deveria. No entanto a responsabilidade acaba, a bem ou a mal, por vir ao de cima.
Assim que entrei na sala B1, fui imediatamente transportado à idade dos meus alunos. Foi como estar nos bastidores da infância: ando pelas salas de professores, lido com dossiers pesados, o outro lado da moeda que nunca vi –- e que é, na verdade, uma grande moeda – é na escola que nos vamos tornando pessoas.
Chegamos à vida adulta como chegamos à adolescência: sem grande aviso, e sem nos darmos conta. Nos primeiros minutos da aula, pensei para mim: eu ainda sou um miúdo. A maioria das pessoas que conheço, são miúdos, putos que tiveram de crescer, muitas vezes contrariados.
Crescer, por vezes, parece uma espécie de fingimento. A minha volatilidade interna não ajuda. Há dias em que me sinto com a idade que tenho, e há outros em que me apercebo que ainda estou no quinto ano: chateado por não ter o que quero, incapaz de colocar ordem no caos, vulnerável a um sentir violento que tira o gosto a tudo o resto.
Há dias em que tudo o que pinto, canto, ou escrevo, me parece vergonhoso e insuficiente. Como um puto. Outros, em que olho com orgulho para tudo o que já consegui, tudo aquilo a que sobrevivi, sem que isso me tenha danificado ao ponto de desistir de ser melhor.
Quando a aula começou, eu deixei de ter barba, bigode e ombros largos. Ainda vestia a roupa que a minha mãe me comprava, e estava mais ansioso para que chegasse o toque das seis e meia para me pôr na alheta, chegar a casa, e pegar na minha guitarra.
"Professor Simão"
A notícia corre depressa. As minhas turmas seguiam-me, de olhos esbugalhados, com um fascínio imenso pela criatura despenteada e vestida de preto, a quem outro professor ia mostrando a escola: onde eram as salas, onde estavam as chaves, quem era a contínua mal-humorada e aterrorizante que eu poderia chamar para domar qualquer situação problemática.
Chegou a hora da aula, e a criatura demorou cerca de um minuto e meio até que tivesse de perceber que durante os segundos seguintes, o Simão do 5ºA em 2003 tinha de crescer para se tornar o Professor Simão, diretor de turma do 5ºD em 2026.
É engraçado, porque nesses segundos passaram-se vinte anos, e como que por magia, comecei a pôr ordem na coisa. No autocarro de volta para casa, fui assomado por uma sensação mesmo, mesmo estranha:
“Olha, consegui”.
Quando todos os meus cabelos ficarem brancos, as minhas mãos enrugadas e a minha pele fina, eu vou olhar-me e ver ainda o Simão do 5ºA., com 11 anos, a jogar torneios de cartas Magic no recreio, a querer fugir do mundo com o nariz enfiado num livro ou num bloco de desenhos.
E vou-me perguntar: "porra, como é que cheguei até aqui?" E interrogar-me "Como é que consegui enganar toda a gente? Eu não me sinto com a idade que tenho! Ainda sou um puto!"
Deus queira que sim. Se calhar estava a precisar dessa humildade.
Fig. 1 & 2: Aguarelas desta semana
Havia lá um rapaz que estava a desestabilizar a aula. Levantava-se, falava, teimava! Fui à secretária dele. Não estava a conseguir fazer o exercício que lhe tinha dado. Não se sentia capaz, aquilo era frustrante, parecia demais para as capacidades que tinha. E portanto, como não acreditava que era capaz, como se sentia insuficiente, partiu para o disparate.
O que é mesmo bonito de ver nestas idades, é a humanidade gritante que transparece. Estes putos ainda não são muito bons a esconder o que sentem. Não têm vocabulário suficiente para racionalizar de forma convincente as inseguranças e medos que têm. São como os adultos, mas mais fáceis de ler, e, talvez, ainda vão a tempo de mudar.
Sempre que me deparo com um problema, ultimamente, tenho-me perguntado: o que significa aqui, "mais amor"? Ou seja: como é que eu posso colocar de lado o peso que o meu desejo e vontade e egoísmo exerce sobre o que quer que isto seja?
A resposta, de uma forma ou de outra, vem da escolha que eu fiz, há muito tempo atrás, de encarar todas as pessoas com quem me cruzo como se fossem primos afastados, ou irmãos. São cada vez mais raros os momentos em que sentimos isso. E se sentimos que há falta de alguma coisa no mundo, acredito que temos uma responsabilidade de ser aquilo de que sentimos falta. O peso da vida torna-se tanto, que o caos e o ruído ofuscam a verdade essencial de que: ninguém sabe ao certo o que está a fazer, a menos que se seja um idiota incapaz de auto-reflexão.
E embora para muitos de nós já seja tarde, ou tenhamos armaduras de tal forma bem soldadas, que não conseguimos já crescer para fora delas…Ainda somos todos uma cambada de putos assustados, e que precisam de cuidado, de carinho, de atenção.
Posso-me apenas lembrar que já fui, e parte de mim sempre será, uma criança. E que na maioria dos casos, um pouco de amor, de paciência, e de atenção resolvem mais problemas do que qualquer drama ou intelectualização sofisticada.
Eu preciso, e não desisto de acreditar, que estamos sempre a tempo de viver de outra forma. Não posso fazer nada quanto ao que não tive.
Daqui a uma semana já vou estar farto deles e a arrancar os cabelos: ainda é cedo para saber no que vai dar esta aventura.
Vou reler isto e achar: “fogo, estava mesmo iludido, e optimista! Que jovem e ingénuo que era quando escrevi isto”
“Era mesmo puto”.
-Professor Simão




