72. AS ESTRELAS
No meio de tanto rodopio, quais são as coisas que realmente importam?
É que há fumo, tanto fumo e barulho em redor que os olhos picam e choram por tudo e por nada, e andamos que nem uns tontos no meio da confusão, a agarrar-nos ao que podemos. Mas há outra forma de viver. Eu lembro-me de haver outra forma de viver. Lembro-me de outro mundo. Lembro-me de haver tempo.
Lembro-me de como sabe o ar de um sítio que não conheço. Da forma como o tempo de desdobra quando estou num sítio novo. É a coisa mais bonita do mundo. A segunda.
A primeira não digo.
Fig 1. Noite de Verão (Casamento da Carolina), 2022, óleo s/mdf
Lembro-me de como tudo o que parecia esmagador e sufocante de repente não passa de uma cortina de fumo.
Do outro lado, vêem-se as estrelas.
Respiro.
O sol vai voltar. O ar fresco também.
Lembro-me que essas coisas voltam.
Às vezes demoram.
Mas voltam.
-Simão Martinez, de papo para o ar



