71. ÀS ARMAS
Entre guerras e torradas.
No fundo, marketing consiste um pouco em incentivar as pessoas a comprar algo de que, à partida, não precisam. Ou, em alternativa, a escolher uma entre várias possíveis soluções às suas necessidades. Quando a necessidade não existe: cria-se.
Quantos de nós acham a guerra uma coisa verdadeiramente anormal? Quando estudamos história, parece que a usamos como medida de tempo.
“Então, veio o Império tal e inventou o pão assim e assado — depois apareceram os não-sei-quantos e limparam-lhes o sebo e começaram a pôr manteiga no pão. Depois os não-sei-que-mais estiveram lá uma data de anos em guerras, mudaram a receita da manteiga, morreu imensa gente.
Inventaram-se as torradas.
Entretanto lá do Norte eles também queriam torradas então invadiram e mataram toda a gente.”
E por aí fora.
Quem diz torradas diz outra porcaria qualquer. O que há em comum nisto tudo é sempre um espertalhão de proto-marketing que convence uma multidão de (no geral) adolescentes a ir chacinar outra, arriscar o couro, morrer de sépsis numa vala qualquer enquanto quem come as torradas lá teoriza sobre o que se passou.
A guerra é-nos vendida. A guerra tem de nos ser vendida. É raro ver anúncios de pão - o pão vende-se a si mesmo, é uma necessidade. Explodir com coisas e com pessoas, é um pouco mais difícil de digerir. Mas também lá se chega.
Pouco a pouco.
Notícia a notícia.
Bitaite a bitaite.
Vamos acreditando que é normal.
E o normal que todos partilhamos, torna-se insuportavelmente atroz.
Fig. 1 Correu Mal, óleo e encáustica s/ argila, fragmentos, 2024
O que importa, a toda a gente, são as suas relações. As comunidades em que vivemos. Basta que algo as ameace, real ou não, e de súbito passa a valer tudo para eliminar o perigo. Tudo.
O nosso cérebro não é racional: é fundamentalmente social. A racionalidade e psicopatologia resultantes são subprodutos. Quantos dos momentos mais marcantes das nossas vidas — triunfos, perdas, amores, lutos — foram vividos em solidão?
A solidão enlouquece os seres humanos. Os que não enlouquecem é porque já eram loucos.
Então, quando nos sentimos ameaçados, quando temos medo, o que procuramos? Alguém. Alguém que nos diga que não há nada a temer. Alguém com uma resposta para tudo aquilo que não conseguimos enfrentar sozinho.
É o nosso instinto mais puro. E o mais violentamente corrompível.
Porque com bom marketing, aquele que dissolve o nosso julgamento, contorna os nossos valores com habilidade, sabe puxar o fio aos desagrados certos… Compramos tudo e um par de botas. Compramos que a ordem natural das coisas é estar cada um por si.
E quanto menos vamos tendo, mais vamos gastando, para tentar tapar o buraco do que nos falta. Mais nos agarramos à fé e à fantasia. Até ser a única coisa que nos resta.
Eu não sei bem porque vos escrevo. Não sei bem o que sentir, o que pensar em relação aos tempos que correm. Mas pergunto-me:
Quão tresloucada está a nossa normalidade?
Onde é que nos enganámos?
Não devíamos ter virado ali duas ruas antes?
É difícil perceber em que momento nos perdemos.
Foi pouco a pouco.
É assim que nos perdemos sempre.
-Simão Martinez, desarmado



